Wednesday, June 11, 2008

Big Bang

O Microcosmos que aqui se analisa, se pensa, se discute, é esse espaço humano saudosista, essa imensidão de gentes que se cruza conosco e que somos, essa massa humana, uma espécie, uma humana raça, todos nós.

Sob que prisma se comenta o que o quotidiano nos mostra? Pela ideia de quem escreve, pela evolução sempre constante do escritor. Cumpre por isso esclarecer que este vê o mundo pela perspectiva da necessidade de o fazer reflectir, mudar por dentro os vícios que enformam o seu porvir. A revolução das almas é o que almeja, independentemente da forma que se escolha, com o fim último de promover a igualdade. Assim, pensa-se de forma semelhante ao texto abaixo transcrito, e esclarecidos que ficarão os leitores, em breve terá início essa correria de tinta a que espero que respondam, nesta construtiva crítica que nos faz remexer por dentro e por isso crescer.

SER DE ESQUERDA não é ter lido muitos livros nem mastigado ideologia. Ser de esquerda não é uma atitude face à privação e ao sofrimento. Não significa ter compaixão, (já) não significa ter resistido à ditadura. Ser de esquerda é a capacidade de acreditar que o mundo só muda e só pode mudar porque a riqueza nele existente e criada não pode estar desigualmente distribuída. E a capacidade de acreditar que dadas as mesmas oportunidades a todas as pessoas, as pessoas não se comportam da mesma maneira face a essas oportunidades. Umas são bem sucedidas e outras falham e as que falham têm de ser ajudadas. E, por fim, a capacidade de acreditar que todos podemos e devemos mudar o mundo nesse sentido. Esta simplicidade de panfleto romântico não implica partidos nem religiões, clubes ou associações. Não se é de esquerda por se ser socialista, é-se socialista por se ser de esquerda.

A liberalização dos comportamentos, as questões éticas e estéticas, a maior ou menor rigidez social, a crença no futuro radioso e a estima pelas utopias são ornamentos àquele edifício de ideias, não são a fundação. O egoísmo contra o altruísmo social ainda não foi apropriado nem reclamado com sucesso pela direita, que sabe o que lhe convém. Numa democracia civilizada e europeia como a portuguesa este tipo de dicotomia parecia ter deixado de fazer sentido. A direita, também ela civilizada e moderna, reclama uma forma de regular os assuntos humanos assente nos princípios do liberalismo económico e do mercado e da livre oportunidade, retirando o Estado da sua função principal, a redistribuição igualitária da riqueza e a promoção de uma sociedade mais justa e equilibrada.

Os últimos anos de expansão económica e bem-estar e as vantagens da globalização e do mercado único europeu pareciam ter-lhe dado razão. Na verdade, a direita reclamava a condução dos destinos humanos através da bolsa e dos índices económicos mas governava-se à esquerda. Ou, pelo menos, governava-se à esquerda na Europa. Nem um único líder europeu de direita ousou desmantelar o aparelho do Estado em matéria social, privatizar completamente a justiça ou a segurança, a saúde ou a educação, as obras públicas e o poder local. Para todos os efeitos, os chefes políticos estavam de acordo em que o desmantelamento do Estado conduziria ao caos civilizacional e à barbárie e que o capitalismo internacional e a doutrina do dinheiro podem chegar para fazer viver alguns no conforto económico mas não chegam para esbater a linha ténue que separa o egoísmo do altruísmo. Oitenta por cento do Planeta vive na miséria.

Para aumentar a confusão, chefes da "nova esquerda" como Tony Blair vieram certificar o liberalismo e continuar a política das privatizações (transportes, recolha do lixo) mas, chegados ao dilema da extinção dos esquemas de protecção social, recuaram. Ninguém conseguiu dar cabo do Estado. Nem conseguirá.

Em Portugal, esta questão antiga do mais Estado contra menos Estado, reabilitada pelo PSD, continua a alimentar a polémica esquerda/direita. Num país pobre, falar na retirada do Estado dos sectores essenciais de regulação e de intervenção tem apenas um efeito: perder eleições. A discussão deveria centrar-se, até estarem "reunidas as condições ideais de produção", em saber como moralizar e reformar o Estado que temos e de que precisamos muito, num momento da história do mundo em que o capitalismo selvagem e o liberalismo económico mostram a incapacidade para resolver os problemas da comida e da energia e da sua produção e distribuição.

As multinacionais são isso mesmo, multinacionais, e o capitalismo global não cuida dos interesses dos povos, cuida dos interesses dos accionistas. Os políticos que elegemos cuidam dos interesses dos povos e, quando confundem o seu papel com o dos grupos económicos e começam a falar como empresas privadas, alardeiam ignorância e estupidez. Isso viu-se por cá quando Menezes, elevado a líder, começou a falar em transformar o partido numa "empresa" e encomendou uma frota de carros de vidros fumados e bilhetes de executiva para o "líder" e cortejo de assessores como forma litúrgica de demonstração de poder político. O ridículo mata. Hoje, só existe um modo de dar continuidade à discussão: saber que Estado e em que estado, sabendo que o Estado é o alvo da rapina mais infame no Portugal democrático. E saber que as privatizações prolongaram monopólios privados sem melhoria dos serviços nem do interesse público. Abre-se um jornal sério e não passa um dia sem que se saiba de mais um negócio do Estado em que o Estado, (in)explicavelmente, resolveu gastar mais do que devia e podia. Veja-se o caso do SIRESP, fede. Os partidos e seus boys, empresários e grupos apropriaram-se do Estado em proveito próprio, traficaram influências, construíram fortunas. E passeiam a impunidade perante a privação. A questão esquerda/direita torna-se irrelevante perante a confissão da rapina. Para as pessoas, não se trata de saber quem é mais de esquerda. Trata-se de saber quem vai pôr cobro à rapina agora que a crise veio demonstrar que o dinheiro não chega para todos, e que o Estado rouba os pobres nos impostos e serviços para criar novos-ricos. Este é o Estado das coisas e foi aqui que o Estado falhou: não se moralizou e desmoralizou-nos. E esta foi a grande derrota da esquerda.


Clara Ferreira Alves